Guttho Lekan

twenty somethin', ator, produtor de eventos, pseudo-designer, artesão, quase escritor e mais um montão de coisas.
+ livros, chá, girafas, outono, abraços apertados e sorrisos sinceros.



● A LOST BOY NOT READY
TO BE FOUND ●

@oguttho

uma simples canção nacional

Escrito originalmente em 2015
– Eu fiz uma música pra você.
– Sério?
– Sim.
Eu sorri.
– Quero ouvir.
– Mas acho que você não vai gostar.
– Ué, por quê?
– Sei lá... Você é desses que só gosta de ouvir músicas internacionais. A minha música é só uma simples canção nacional. – Ele encarou o chão.
Eu sorri de novo.
– Ah, mas é diferente, né. Uma simples canção nacional feita pra mim. Eu tenho certeza que vou gostar.
Ele continuou encarando o chão por alguns instantes e então me olhou nos olhos.
– É que tem mais uma coisa...
– (...)
– Eu não quero que você pense que eu sou louco, ta? Há algum tempo quero te dizer uma coisa, só que nunca encontrei as palavras certas pra isso, então fiz essa música... Mas eu tenho medo, porque não quero te assustar.
– (...)
– Você não vai falar nada?
– É que agora quem não está encontrando as palavras certas sou eu e estou muito curioso pra ouvir essa música tão misteriosa.
Ele pareceu decepcionado, obviamente esperava uma resposta diferente.
– Ta... Eu só espero que você entenda.

Photo by Ahmed Rizkhaan on Unsplash

E antes que eu pudesse falar qualquer coisa ele pegou o violão e começou a tocar.
A melodia era linda, mas eu estava ansioso pela letra e quando ela veio, foi como um tiro. Não. Um tiro doeria bem menos que aquela voz. Mas foi uma dor boa, muito boa. Eu ouvia aquele conjunto de palavras e melodia, e não conseguia me sentir de outra forma se não feliz. A canção de fato era nacional, mas de simples não tinha nada. Na verdade, era bem mais complexa do que eu poderia imaginar e dizia bem mais do que eu esperava. Fechei meus olhos e tudo sumiu, até a última nota só existia ele, a música e eu. Antes que eu pudesse perceber senti uma lágrima escorrendo pelo meu rosto e quando abri meus olhos, ele me olhava de um jeito intenso e chorava. Eu entendi. Eu entendi o que ele não conseguiu verbalizar, entendi o que estava escondido. Eu havia entendido bem antes. Eu entendi quando senti algo diferente e também não encontrava palavras para dizer isso a ele. Eu entendi quando o conheci.

A música acabou e nós apenas nos olhamos por vários minutos, até que eu quebrei o silêncio.

– Eu também te amo.
Os olhos dele brilharam e ele me abraçou. Aquele foi o melhor abraço de toda a minha vida.
– Eu odeio viver com a certeza de que tudo tem um fim. – Ele disse com um olhar triste.
– Eu também... Mas por que isso agora?
– Porque eu não quero te perder.
– E nem vai...
 – Olha, eu sei que somos jovens e que isso pode parecer loucura, mas me promete uma coisa?
– O quê?
– Que nunca vai me deixar...
– Realmente parece loucura, mas eu prometo.

E nós nem sabíamos que sendo loucura ou não e apesar da juventude, aquela promessa seria cumprida.


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